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António Saiote celebra 50 anos de carreira com concerto em formato inédito no FIMUV

Concerto irá decorrer no auditório da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira

O clarinetista António Saiote é um dos protagonistas da 43.ª edição do FIMUV, no ano em que celebra 50 anos de uma carreira multifacetada.

António Saiote estreou-se como clarinetista aos 10 anos, numa atuação pública com a banda dos Bombeiros de Loures, e o que se seguiu foram cinco décadas de formação constante em instituições portuguesas e estrangeiras, o que resultou numa ímpar carreira internacional de intérprete, condutor e pedagogo. Fazendo questão de se associar a essa celebração, o FIMUV – Festival Internacional de Música de Paços de Brandão inclui na sua 43.ª edição um concerto que não se limita a assinalar esse meio século de atividade em prol da superior execução artística; o espetáculo também fará história por juntar em palco três intérpretes que, embora consagrados como solistas, atuarão pela primeira vez em trio – António Saiote, a violoncelista Irene Lima e o jovem pianista Vasco Dantas. Um concerto único em estreia absoluta, com entrada livre e acesso restrito a cerca de 90 espectadores.

Cartaz do FIMUV – Festival de Música Internacional de Paços de Brandão

O clarinetista António Saiote é um dos protagonistas da 43.ª edição do FIMUV, no ano em que celebra 50 anos de uma carreira multifacetada: nesse percurso vem combinando as vertentes de executante, maestro, docente, pedagogo e até mesmo contador de histórias, dada a naturalidade com que complementa as suas atuações ao vivo com perspetivas muito pessoais sobre o contexto artístico e social de determinadas composições, experiências passadas relativas a idênticas performances e análises críticas sobre a realidade artística e cultural dos mais de 40 países onde fez currículo.
No momento de selecionar o repertório a levar ao palco, é habitual que as suas escolhas reflitam essa versatilidade: o clarinetista tanto se dedica aos compositores maiores da escola clássica europeia como explora a canção dos anos 60 e 70, alguma pop dos anos 80, o tango argentino ou o flamenco espanhol.

Irene Lima

Para o Auditório da Biblioteca de Santa Maria da Feira, a aposta será, contudo, em obras ajustadas ao formato que faz a sua estreia absoluta no FIMUV: o trio que junta António Saiote à violoncelista Irene Lima, chefe de naipes na Orquestra Sinfónica Portuguesa, e também ao pianista Vasco Dantas, considerado um dos jovens músicos nacionais mais promissores da sua geração. As três obras com que esses respeitados solistas individuais farão a sua estreia em trio serão assim a “Gassenhauer” de Beethoven, a Opus 114 de Brahms e a composição lírica N.º 143 de Nicolas Bacri.
“Será um momento especial”, afirma António Saiote. “Já trabalhei muitas vezes com a Irene Lima, que é uma violoncelista brilhante, mas vai ser a primeira vez que estamos juntos em palco com o Vasco Dantas, que é de uma geração bem diferente da nossa e tem um grande futuro pela frente”.

Vasco Dantas

O trio em causa formou-se por iniciativa de Augusto Trindade, o violinista e docente que assume a direção artística do FIMUV de 2020. Esse responsável reconhece que, num ano ditado pela pandemia de covid-19 e pelas restrições impostas à mobilidade internacional, a programação do festival decidiu privilegiar os intérpretes portugueses e a presença de António Saiote era “incontornável no momento em que o maior clarinetista português celebra meio século de uma atividade de superior qualidade e reputação”. Irene Lima e Vasco Dantas foram os convidados escolhidos para participar da celebração que, “evocando um músico de excelência, não podia prescindir de intérpretes ao mesmo nível”.
Embora consciente de que o concerto não poderá ser acompanhado presencialmente por mais do que 90 pessoas, dadas as exigências de distanciamento físico determinadas pela Direção-Geral da Saúde, Augusto Trindade afirma que o espetáculo será “um marco na história do FIMUV e um acontecimento no panorama português da música erudita”. Isso porque, além de assinalar os 50 anos da “respeitadíssima carreira internacional de António Saiote”, o concerto também evidenciará “a humildade característica dos grandes e melhores artistas, quando, em prol do público e da sua missão cultural, se predispõem a partilhar o palco, prescindindo de protagonismos individuais e caprichos do ego”.

Um artista profícuo, com visão e sentido prático


“Podes ser muito bom músico, mas nunca vais ser bom profissional se continuares a chegar atrasado aos teus compromissos”. Foi com base em lições francas e despretensiosas como essa que o poliglota António Saiote construiu a sua reputação mundial de pedagogo. Adepto de fortes valores morais, contrário a mediatismos sem mérito ou estrelatos sem matéria de facto, e apologista e que “é preciso ter mundo” para se evoluir pessoal e profissionalmente, o clarinetista adquiriu técnica e fibra ao longo de um percurso desafiante: foi bolseiro da Fundação Gulbenkian em Paris com Guy Deplus e Jacques Lancelot; recebeu idêntico apoio para ter aulas com Gerd Starke, após o que obteve com distinção o Meisterdiplom da Hochschule de Munique; tirou uma Pós-Graduação em Espanha em Música Contemporânea, com Artur Tamayo, e outra em Inglaterra em Repertório Tradicional, com Georges Hurst; concluiu um Mestrado em Direção de Orquestra pela Universidade de Sheffield; etc.
Do seu extenso currículo constam atuações com as principais orquestras portuguesas, com coletivos estrangeiros como os de São Paulo, Xangai e Zurique, e em festivais de vários países e diferentes continentes.
Desde 1998, exerce também como profícuo maestro: é condutor titular da Orquestra Sinfónica do ESMAE – Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo, onde leciona; já dirigiu “todas as orquestras portuguesas e ainda outras de Espanha, Venezuela, França e Alemanha”; e é colaborador regular do Sistema Venezuelano de Orquestras Infantis e Juvenis. Conduziu igualmente várias óperas, entre as quais “Il Boticario” de Haydn, “Os Sete Pecados Mortais” de Kurt Weill, “Pierrot Lunaire” de Schoenberg, “A Hora Espanhola” de Ravel e “Così Fan Tutte” e “A Flauta Mágica” de Mozart. É ainda autor de vários álbuns discográficos, estando, aliás, a gravar um novo disco que espera lançar até ao final de 2020.